Friday, 6 October 2023

Sessão de Sexta: 'Paulie - O Papagaio Que Falava Demais' (1998) - Um Clássico Menor dos 'Filmes de Animais'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O género cinematográfico dos 'animais falantes' teve, nos anos imediatamente antes e depois da viragem do Milénio, a sua época áurea. Ao passo que os filmes centrados em animais do período mais clássico – entre os anos 50 e 70 – preferiam que fossem as acções dos protagonistas a construir e conduzir a narrativa, os seus congéneres de finais do século XX e inícios do seguinte não deixavam qualquer informação importante ao acaso, fazendo questão de transmiti-la na voz de uma qualquer celebridade, super-imposta aos movimentos labiais (acidentais ou gerados por computador) de um qualquer 'bicho'. E a verdade é que, no que toca a animais para 'fazer' falar, os papagaios estão inegavelmente entre as escolhas mais naturais, dada a sua habilidade intrínseca para aprender e reproduzir sons.


Está, assim, explicada a linha de pensamento por detrás de 'Paulie – O Papagaio Que Falava Demais', um filme cuja premissa é, literalmente, o reconto, por parte de um papagaio falante, das suas aventuras depois de ser separado da sua família adoptiva, e que procurava, claramente, almejar o mesmo nível de sucesso dos dois 'Regresso a Casa' ou da então incipiente franquia 'Doutor Doolittle'. E apesar de não ser, hoje em dia, lembrado com a mesma nostalgia de qualquer dessas duas propriedades, a verdade é que a película não deixa de constituir uma boa alternativa para uma tarde de fim-de-semana em família, até por não se dar aos excessos pseudo-cómicos de qualquer dos seus 'concorrentes'.


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Capa do DVD nacional do filme (crédito da foto: OLX).


De facto, no cômputo geral dos filmes de animais da década de 90, 'Paulie' é um filme menos frenético e hiperactivo do que 'Doutor Doolittle' ou 'Beethoven', colocando maior ênfase na aventura e nas relações interpessoais do que nas piadas constantes, sem no entanto perder o humor trazido pela interpretação de Jay Mohr como o personagem principal – sendo que, neste aspecto, o mesmo se aproxima sobremaneira do supramencionado 'Regresso a Casa' e respectiva sequela, ou ainda dos dois capítulos da saga 'Babe', o segundo dos quais produzido no mesmo ano. Efectivamente, apesar de as peripécias de Paulie se prestarem a vários momentos cómicos, sempre pontuados pelos 'dichotes' do papagaio, e dos diversos e caricatos humanos com quem se cruza, o cerne do filme reside, sobretudo, na carga emocional de ver o 'bicharoco' perder a família e acabar como cobaia num laboratório, sem que tal destino lhe retire a esperança e o optimismo, apesar do adivinhado fim trágico que se avizinha – um desfecho que, podendo ser algo 'forte' para a geração actual, não era totalmente incomum em filmes infantis mais clássicos, em que nem sempre tudo acabava bem.


Em suma, apesar de estar longe de ser um clássico ao nível dos restantes filmes mencionados neste 'post', 'Paulie' não deixa de constituir uma forma agradável de 'matar' uma hora e meia, capaz de manter as crianças interessadas sem aborrecer (muito) os adultos; perfeito, portanto, para um qualquer fim-de-tarde deste 'Verão de S. Martinho' antecipado que se vive actualmente em território português.


Thursday, 5 October 2023

Quintas de Quinquiharia: Os Reflectores de Bicicleta da Kellogg's

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Para as crianças e jovens portugueses de finais do século XX, os cereais de pequeno-almoço faziam parte daquele lote de produtos (encabeçado pelas batatas fritas, produtos da Panrico e ovos de chocolate) que aliavam um sabor agradável à ainda mais agradável possibilidade (aliás, quase sempre certeza) de receber um brinde grátis na embalagem – com a vantagem adicional de, por serem considerados saudáveis, constituírem parte mais frequente e menos polémica das compras da família. E se as referidas batatas da Matutano e derivados do Bollycao se ficavam, a maior parte das vezes, por um cromo ou 'quinquilharia' mais pequena, à medida dos seus pacotes, este tipo de produto podia investir em brindes maiores e (ainda) mais atractivos, levando a que, nos últimos anos do século XX e primeiros do seguinte, chegassem a haver malgas ou CD-ROM com jogos inteiros de computador colados às caixas de cereais da Kellogg's e Nestlé.


No início da década de 90, no entanto, os brindes tendiam a ser mais simples, embora nem por isso menos atraentes e atractivos; e embora muitas dessas ofertas tenham, entretanto, caído no esquecimento colectivo da geração que os procurou em cada nova caixa de cereais, pelo menos uma provou ser especial o suficiente para perdurar através dos anos – os reflectores para bicicleta oferecidos pela Kellogg's algures na primeira metade da década.


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Talvez os dois formatos mais comuns do brinde em causa.


À partida, pode parecer surpreendente ver algo tão prosaico quanto um reflector de bicicleta – uma peça de equipamento relativamente barata e amplamente disponível nas lojas especializadas – ser não só escolhido como oferta deste tipo, mas também activamente cobiçado pelo público-alvo; no entanto, neste caso, a razão para tal estatuto era por demais simples, prendendo-se com o facto de cada um dos reflectores contar com um rebordo em plástico, estilizado para evocar as mais populares mascotes da marca, que adicionava um toque de personalidade às rodas da bicicleta de quem tivesse a sorte de os tirar da caixa; lá por casa, por exemplo, havia um, verde e em formato de galo, que parece ter sido o mais comum de entre os disponíveis.


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O efeito dos reflectores em causa após colocados na bicicleta.


Assim, e apesar da peculiaridade da proposta, não é difícil perceber o que fez desta uma das mais bem-sucedidas promoções de cereais de sempre em Portugal – o brinde em causa representava a união de uma série de interesses das crianças e jovens da época, e tinha verdadeira utilidade no dia-a-dia. Pena que, com a extinção dos brindes nas caixas de cereais, a Geração Z tenha deixado de ter a possibilidade de experienciar a emoção de enfiar a mão num pacote acabadinho de abrir e 'vasculhar' no interior para ver o que tinha saído; quem viveu aqueles tempos, no entanto, certamente nunca esquecerá – e brindes como o aqui abordado são, em grande parte, responsáveis pelo acesso de nostalgia que tal lembrança continua, ainda hoje, a causar.


 

Wednesday, 4 October 2023

Quartas de Quase Tudo: Os Horários Escolares

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


As duas últimas semanas do mês de Setembro assinalavam, para os alunos portugueses das gerações 'X' e 'millennial', o regresso às aulas, com todos os trâmites e rituais nele implicados, das matrículas à compra de material e livros e, claro, a sempre importante decisão sobre a côr do carimbo a estampar no cartão da escola, e subsequente nível de liberdade e autonomia. Em meio a tudo isto, havia ainda outro componente, menos trabalhoso e consequente, mas nem por isso menos importante: a obtenção e preenchimento de um horário escolar.


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Exemplo de um horário promocional, no caso alusivo aos sumos Joi.


De facto, numa era em que a maioria dos processos eram, ainda, analógicos, aquelas folhinhas de papel ou plástico com uma grelha dividida em dias da semana e número de períodos típico de um dia de aulas constituíam a principal forma de um aluno recordar as datas, horas, ordem e até salas em que teriam lugar cada uma das suas aulas, tornando-os um auxiliar essencial para as primeiras semanas de aulas, antes de essas mesmas informações serem interiorizadas e o processo se tornar 'mecanizado' na mente do aluno.


Efectivamente, a importância dos horários era tal que, mesmo servindo apenas e só uma função utilitária, os mesmos estavam sujeitos às mesmas regras estéticas que qualquer outro elemento do 'kit' escolar; embora houvesse quem preferisse simplesmente anotar essas informações no verso do cartão da escola – que oferecia uma grelha para o efeito – a maioria das crianças e jovens procurava um horário de aspecto diferenciado, muitas vezes obtido gratuitamente como brinde numa qualquer revista juvenil, ou numa loja de material escolar, e orgulhosamente exibido no verso do 'dossier' ou na parede do quarto.


Escusado será dizer que, em plena era digital, os horários perderam toda e qualquer relevância que alguma vez pudessem ter tido; para os alunos de finais do século XX e inícios do seguinte, no entanto, esta aparentemente singela parte do processo de 'rentrée´ escolar revestia-se de uma importância que a torna, ainda hoje, memorável ao recordar os inícios de ano lectivo daquela época.

Terças de TV - 'Grande Animação', o Bloco Infantil Esquecido da RTP

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 03 de Outubro de 2023.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Um dos factores mais distintivos e memoráveis da televisão portuguesa entre finais dos anos 80 e inícios do Novo Milénio foram os muitos espaços e programas infantis de que dispôs, a maioria dos quais com uma personalidade própria que os ajudou a perdurar na memória colectiva das gerações que com eles conviveram. D''A Hora do Lecas', da RTP, aos míticos 'Buereré' e 'Batatoon', passando pelos 'Segredos do Mimix', 'Mix Max', 'Um-Dó-Li-Tá', 'A Casa do Tio Carlos', 'Clube Disney' ou 'Oh! Hanna-Barbera' – sendo que estes dois em breve aqui terão o seu espaço – o que não faltava aos miúdos de finais do século XX eram blocos de animação intercalada com segmentos em estúdio, em que apresentadores carismáticos conduziam jogos, concursos e debates entre as crianças presentes.


Neste particular, e apesar de ter alojado alguns dos programas supramencionados, a RTP ficou, historicamente, um pouco atrás das suas concorrentes, preferindo apostar em blocos que deixavam os programas exibidos falar por si, distinguindo-se apenas pela presença de separadores identificativos. Destes, há a destacar o 'Canal Jovem', 'Brinca Brincando', e o bloco de que falamos esta semana, 'Grande Animação'.


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O programa centrava-se nos clássicos 'Looney Tunes', da Warner Brothers.


Estreado há quase exactos vinte e seis anos, a 5 de Outubro de 1997, e exibido aos Domingos à hora de almoço, esta rubrica contava com conteúdos centrados, sobretudo em torno dos clássicos desenhos animados da Warner Brothers – os chamados 'Looney Tunes', então em alta devido ao mega-sucesso de 'Space Jam' – e seguia a mesma linha dos outros dois programas mencionados, limitando-se a transmitir as animações calendarizadas, sem quaisquer elementos adicionais – uma jogada de risco em plena era hegemónica do 'Buereré', e poucos meses antes do regresso de Batatinha e Companhia aos ecrãs nacionais. Talvez por isso este bloco se encontre, hoje, um pouco 'Esquecido Pela Net' (a excepção é o sempre exaustivo blog 'Desenhos Animados Anos 90') apesar de o seu clássico e imortal conteúdo ter, sem dúvida, ajudado a 'angariar' audiências aquando da sua transmissão original – a qual, aliás, se prolongaria por um ano e meio, até Maio de 1999. Em semana de aniversário, vale, pois, a pena dedicar algumas linhas a um programa que, não sendo tão memorável quanto os que o rodeavam, trouxe, ainda assim, algo de válido e desejável à infãncia e adolescência de duas gerações de jovens portugueses.

Monday, 2 October 2023

Segundas de Sucesso: Bizarra Locomotiva - Trinta Anos de Bizarrices Industriais

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


A grande maioria do movimento musical português continua, até hoje, a centrar-se em torno do pop-rock 'de guitarras' de pendor radiofónico, surgido nos anos 70 e consolidado como principal género lusitano nas duas décadas seguintes. Aqui e ali, surgem nomes proeminentes em outros estilos – nomeadamente o hip-hop, o metal e mesmo o tradicional fado – mas os mesmos continuam a ser uma minoria, e até mesmo esta breve 'janela' de oportunidade tende a não se estender a géneros mais periféricos do espectro musical. Serve esta introdução para clarificar que fundar um projecto de rock industrial em Portugal é nada menos do que um acto de coragem – e conseguir mantê-lo activo e relevante durante três décadas, uma façanha digna de ser louvada.


E, no entanto, é precisamente isso que Armando Teixeira e Rui Sidónio têm vindo a conseguir com o projecto Bizarra Locomotiva, cujo último álbum saiu há pouco mais de uma semana à data de publicação deste 'post', que teria sido escrito apenas dois dias após o seu lançamento, não fora o hiato forçado. Ainda assim, mesmo com este atraso, o lançamento de 'Volutabro' continua a ser relevante o suficiente para justificar uma retrospectiva dos seus autores, até por este ano assinalar o trigésimo aniversário do projecto.


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De facto, foi em 1993 que Teixeira e Sidónio procuraram reunir uma banda, com vista a participar no Concurso de Música Moderna de Lisboa. Desse primeiro passo à transição para banda 'a sério' mediariam apenas alguns meses, com o álbum de estreia auto-intitulado a sair logo no ano seguinte, pela independente Simbiose, uma das principais editoras de bandas 'underground' de rock pesado em Portugal.


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O álbum de estreia do grupo, lançado em 1994.


Esse mesmo selo viria, nos dois anos subsequentes, a editar mais dois registos de originais de um grupo que provava ter uma ética de trabalho 'à moda antiga', e que, no tempo que normalmente leva a uma banda a escrever um único álbum, lançava três registos, por entre uma agenda de concertos bastante preenchida – uma atitude que, aliada à qualidade do colectivo, não tardaria a torná-los conhecidos dentro dos círculos do rock, punk e metal portugueses, e que lhes valeria o respeito de nomes como Fernando Ribeiro, dos Moonspell (que viria a participar num dos discos do colectivo) e a participação na Bienal de Jovens Criadores da Europa Mediterrânica, em meados da década. Até final da mesma, tempo ainda para um quarto álbum ('Bestiário', de 1998, novamente pela Simbiose) e para a participação no lendário tributo aos Xutos e Pontapés, 'XX Anos, XX Bandas', com uma reinvenção industrializada do tema 'Se Me Amas' que não deixava de se destacar do som mais clássico e típico de outros colectivos presentes no disco, como os Entre Aspas.



O Novo Milénio via, finalmente, o ritmo de trabalho do grupo abrandar para um ritmo mais normal – nos primeiros dez anos do século XXI, saem três registos de originais, o último dos quais, 'Álbum Negro', de 2009, com intervalo de cinco anos em relação ao anterior 'Ódio' – mas sem beliscar minimamente a reputação do grupo, que perduraria até quando, na década de 2010, o grupo quase parou a produção criativa, soltando apenas um único álbum, o sétimo, intitulado 'Mortuário' e lançado por outra 'grande' independente portuguesa, a Rastilho, em 2015. Pelo meio, o afastamento do fundador e vocalista Armando Teixeira – um acontecimento que ditaria o fim de muitas bandas, mas não dos Bizarra, que, por entre compassos de espera tão forçados quanto necessários, chegariam, após tortuosos oito anos, ao disco correspondente (o oitavo) que prova que pouco ou nada mudou na sonoridade metálica industrial do grupo agora capitaneado por Rui Sidónio, um exemplo de perserverança numa cena que continua a ser ingrata para quem não aposte num estilo radiofónico e vendável. Que contem ainda muitos anos, porque o algo estagnado panorama musical português precisa de 'anomalias' como eles.



Primeiro avanço do novíssimo álbum do grupo, lançado no passado mês de Setembro

Sunday, 1 October 2023

Domingo Desportivo: Kulkov, o 'Outro' Russo Vira-Casacas

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Apesar de pouco comum – e invariavelmente vista com desagrado por adeptos do clube 'lesado' – a transição directa jogadores entre 'grandes' portugueses não deixa, ainda assim, de ser uma realidade. Mesmo deixando de parte aqueles que regressam após uma aventura falhada no estrangeiro (como Simão Sabrosa, Quaresma ou Jardel, entre outros) não é difícil nomear jogadores que passam de um dos três principais emblemas portugueses para outro, por vezes apenas 'atravessando a estrada', outras enfrentando as três horas de viagem que ligam Lisboa ao Porto. Desse lote, já abordámos, nesta mesma rubrica, nomes como Zahovic, João Pinto ou Sergei Yuran; agora, e no rescaldo de mais um 'derby' entre Benfica e Porto, chega a altura de juntar mais um nome a essa lista, pertencente a um futebolista que representou, precisamente, esses dois clubes, durante as suas respectivas fases hegemónicas nos anos 90. Falamos de Vasili Sergeyevitch Kulkov, o 'tampão' russo que, ao lado dos conterrâneos Mostovoi e Yuran, foi figura maior do Benfica de inícios daquela década, antes de se juntar a este último na viagem para Norte, para se tornar mais um dos muitos defesas 'feios, porcos e maus' daquela fase do Futebol Clube do Porto.


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O jogador com as duas camisolas com que se notabilizou em Portugal.


Chegado a Portugal com vinte e cinco anos, durante o defeso de Verão da época 1991-92, ao mesmo tempo do que o supra-mencionado Yuran e um ano antes de Mostovoi, Kulkov contava já com créditos firmados em vários clubes da sua terra natal (entre eles o 'gigante' Spartak de Moscovo) Kulkov viria a passar as quatro temporadas seguintes em Portugal, primeiro como parte importante da equipa do Benfica – que ajudaria a passar às meias-finais da Taça dos Vencedores das Taças de 1994, com dois golos memoráveis frente ao Bayer Leverkusen, num mirabolante e histórico resultado final de 4-4 – e depois ao serviço do Porto, onde passaria apenas uma época, mas celebraria o título de campeão nacional que lhe escapara durante a estadia em Lisboa. No total, seriam cerca de cento e quinze jogos (quase oitenta dos quais ao serviço do Benfica), e quinze golos, que ajudariam a tornar o polivalente defensivo (tanto jogava a 'seis' como a central) num dos mais memoráveis nomes a jogar em Portugal na altura.


Após a bem-sucedida 'traição', semelhante à do conterrâneo Yuran, Kulkov voltaria a 'casa', para alinhar no 'seu' Spartak, onde ficaria até 1997, após uma tentativa falhada de empréstimo ao Millwall, de Inglaterra, onde passaria apenas seis meses sem nunca se conseguir adaptar. Seguir-se-iam duas épocas como parte importante do plantel do Zenit de S. Petersburgo e uma passagem perfeitamente anónima pelo Krilja Sovetov, antes de o ex-internacional russo (que somou um total de 42 presenças entre URSS, CIS e Rússia propriamente dita) decidir regressar ao seu 'outro' lar, rumando novamente a paragens lusitanas para alinhar num dos satélites do seu antigo clube, o Alverca, onde 'passa' o Milénio e consegue ainda honrosas vinte presenças. Em 2001, um breve regresso ao seu país natal, para representar o desconhecido Shatura, salda-se como a última aventura de Kulkov enquanto jogador profissional, tendo o russo pendurado as botas ainda nessa mesma época.


Tal como em tantos outros casos, no entanto, a reforma não significava o fim da ligação do russo ao desporto-rei, antes pelo contrário; apenas duas épocas depois, Kulkov regressaria a Portugal como adjunto da ex-lenda do Dínamo de Kiev Anatoliy Byshovets no Marítimo, vindo depois a desempenhar a mesma função em quatro outros clubes da sua terra natal: FC Khimki, Tom Tomsk, o histórico Lokomotiv de Moscovo e, claro, o 'seu' Spartak, aqui como adjunto da equipa B. Em 2013, surge a reforma definitiva, e Kulkov 'desaparece' do Mundo do futebol até 2020, quando a notícia do seu falecimento em consequência da pandemia de COVID-19 vem entristecer adeptos do Benfica, Porto e Spartak, os três clubes em que o russo mais fez história, numa carreira repleta de 'vaivéns' entre dois países completamente díspares, mas unidos pelo facto de terem acolhido o polivalente de farta 'melena' loura e tido oportunidade de o ver explanar as suas qualidades defensivas; e, caso ainda fosse vivo, poder-se-ia mesmo ponderar se Kulkov não teria estado, este fim-de-semana, 'colado' a uma qualquer transmissão internacional, a seguir atentamente o histórico confronto entre dois dos seus três principais clubes. Que descanse em paz.

Sábados aos Saltos. Pinos, Rodas e Cambalhotas

NOTA: Este post é correspondente a Sábado, 30 de Setembro de 2023.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


O título desta rubrica remete a um período em que as crianças passavam, ainda, os dias 'de folga' e com sol maioritariamente no exterior – e em que, apesar da vasta panóplia de apetrechos 'auxiliares de brincadeira', muito desse tempo era gasto em brincadeiras tão simples que mal requeriam equipamento. Dessas, já aqui falámos dos jogos tradicionais, do futebol humano, do 'quarto escuro' (este jogado dentro de portas, mas fácil de inserir na mesma categoria) e dos jogos 'de palminhas' e da 'sardinha'; no entanto, pode ainda ser adicionada a esta lista uma actividade tão simples e divertida quanto os concursos de cambalhotas, de pinos ou de rodas.


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De facto, eram poucas as oportunidades para se 'exibir' fisicamente diante dos seus pares que as crianças de finais do século XX desperdiçavam – e concursos deste tipo (levados a cabo quer na rua, quer no jardim, na praia, ou até mesmo dentro de água, no mar ou na piscina) eram a oportunidade perfeita para o fazer. Pior ficava quem mal conseguia fazer uma roda sem dobrar as pernas, ou um pino sem se encostar à parede; para quem era mais atleticamente inclinado, no entanto, competições deste tipo eram 'ouro sobre azul', já que permitiam superiorizar-se aos colegas e amigos e, quiçá, até deixar bem impressionado o sexo oposto...


Mais - apesar dos recursos tecnológicos terem vindo diminuir consideravelmente a frequência deste tipo de brincadeiras, as mesmas têm um cariz suficientemente intemporal para nunca desaparecerem totalmente dos recreios, pátios e quintais do nosso País, sendo de crer que a Geração Z continue, sobretudo em meios mais rurais, a proceder exactamente aos mesmos trâmites que orientavam este tipo de competição no tempo dos seus pais ou até avós, e a descrever, no asfalto, terra ou relva, rodas perfeitas, cambalhotas e 'mortais' mirabolantes, e pinos (em uma ou duas mãos) de fazer inveja a qualquer ginasta. A diferença é que as referidas 'piruetas' serão, depois, partilhadas no TikTok ou Instagram, impressionando assim não só os amigos, mas todos aqueles que as virem na Internet...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...